domingo, 24 de janeiro de 2010

História do trabalho no Brasil


Questionando a produção de historiadores e sociólogos dos anos 60 e 70, sobre a gênese do trabalho livre no Brasil, Sílvia Lara critica àqueles que pautaram seus estudos de acordo com as idéias de “transição” e de “substituição” [1]. Os defensores da teoria da transição tratavam a História do trabalho no Brasil a partir do final do século XIX, excluindo o trabalhador negro de suas análises, já os defensores da teoria da substituição, considerados pela autora como os radicais da historiografia da transição, postulavam a substituição do escravo pelo trabalhador livre. Em ambas as teses, saem de cena os trabalhadores negros e surgem os imigrantes europeus.
Sílvia Lara, assim como Cláudio Batalha e John French,[2] contrapõe historiadores e sociólogos que, segundo Lara “transformaram em explicação histórica, idéias e concepções que, cem anos antes, faziam parte de um intenso jogo político”. Na segunda metade do séc. XIX discutia-se sobre a incapacidade dos negros e a esperança de progresso simbolizado pela mão- de- obra imigrante. Já nas décadas de 60 e 70, partindo da noção de que o trabalho livre significa a liberdade de poder vender a força de trabalho pela melhor oferta e mais do que isso, que a condição de livre assegura direitos, estudiosos como Florestan Fernandes e J. de S. Martins tratam do trabalhador no Brasil identificando-os como homes brancos vindos do exterior. Porém, Lara, Batalha e French problematizam a idéia de liberdade como a “possibilidade de vender ‘livremente’ a força de trabalho em troca de um salário” (Lara, p.28) e propõem como solução para não cair na cilada da dicotomia (escravidão e liberdade), “historicizar o sentido de liberdade” (French, p.88), os estudiosos devem encará-la não como algo estático e determinado, mas como um processo. A liberdade poderia significar condições de vida piores do que às existentes no período escravocrata (Batalha, p.108), poderia significar viver longe de quem outrora era senhor e, entre outras coisas, “significou a possibilidade de não servir a mais ninguém” (Lara, p.28).
Cláudio Batalha mostra os diversos limites a essas liberdades enfrentados pelos trabalhadores urbanos no Brasil da Primeira República, apresentadas em contraposição à do tempo do escravismo, conforme relataram os estudiosos das décadas de 60 e 70. Evidenciando as condições de trabalho adversas, os abusos sexuais no trabalho, as restrições raciais, a repressão dos patrões e do Estado, e a falta de direitos políticos, Batalha analisa continuidades históricas entre o período da escravidão e o pós- 1888. Porém, essa perspectiva não deve ser usada para explicar tudo. Para ele, explica o preconceito racial e a exclusão, mas características como a violência e a ausência de direitos, pelo fato de também estarem presentes em sociedades que não tiveram um passado escravista, devem ser comparadas às desses países para que possamos compreender melhor a história do trabalho no Brasil. French, sem ressalvas, afirma que “os legados da escravidão africana incluem noções bem estabelecidas sobre o exercício legitimo da autoridade” (French, p. 78). As noções teóricas de liberdade, as mesmas defendidas pelos estudiosos das décadas de 60 e 70, “encontram seus limites na bala de um homem armado” ( French, pp. 82 e 91).
A partir da década de 80, a produção historiográfica já estava mais voltada para compreender o trabalho no Brasil abandonando o determinismo da substituição ou da transição do processo histórico, tão importantes para os intelectuais das décadas anteriores e passou a trabalhar a partir das transformações sociais. Essa forma de abordar a temática relativa à formação da classe trabalhadora brasileira pelos historiadores da década de 80 trouxe um novo olhar sobre a origem desse grupo social, pois considerou que o trabalho livre no Brasil estava ligado não somente à mão-de-obra imigrante, mas sim, e principalmente, ao trabalhador escravo que antecedeu à vinda dos imigrantes estrangeiros. Através de novas fontes e metodologias, os historiadores da “geração 80” produziram uma historiografia que considerou o trabalho escravo como a origem do trabalho e dos trabalhadores no Brasil, pesquisas deixaram de focar apenas São Paulo, destacando como em várias regiões, onde a mão- de- obra imigrante era escassa, predominou a mão-de-obra “nacional”. As utilizações de novas fontes e as releituras de antigas permitiram que historiadores problematizassem paradigmas e observassem como a atitude de “ganhadores” durante A greve negra de 1857 na Bahia[3], por exemplo, mostram como os negros, escravos ou libertos, já estavam integrados à dinâmica do trabalho livre. Sendo assim, as teorias de transição e substituição perdem valor explicativo.

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[1] LARA, Silvia Hunold. "Escravidão, cidadania e história do trabalho no Brasil". Projeto história: revista do Departamento de pós-graduação da PUC-SP. São Paulo, EDUC, no 16, 1997, pp. 25-38.
[2] BATALHA, Claudio H. M. “Limites da liberdade: Trabalhadores, relações de trabalho e cidadania durante a Primeira República”. In: Douglas Cole Libby; Júnia Ferreira Furtado. (Org.). Trabalho livre, trabalho escravo - Brasil e Europa, séculos XVIII e XIX. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2006, p. 97-110 e FRENCH, John. “As falsas dicotomias entre escravidão e liberdade: continuidades e rupturas na formação política e social do Brasil moderno”. In: Douglas Cole Libby; Júnia Ferreira Furtado. (Org.). Trabalho livre, trabalho escravo - Brasil e Europa, séculos XVIII e XIX. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2006 pp.75-109.
[3] REIS, João José. A greve negra de 1857 na Bahia. Revista da USP Dossiê Brasil/África. São Paulo, 18:07-29, jun./jul./ago. 1993

Resenha do livro: O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil (David Gueiros Vieira)

Neste importante estudo, Davis Gueiros Vieira, PhD em História da América pela American University (Washington, DC) e professor aposentado da Universidade de Brasília, registra de forma esclarecedora a participação dos protestantes na chamada Questão Religiosa, resumidamente entendida como conflito entre católicos ultramontanos e a maçonaria na segunda metade do século XIX. Partindo de 1850, o autor apresenta os antecedentes dos fatos que, sem dúvida alguma, foi o mais duro conflito entre a Igreja e o Estado do século XIX. A presente obra foi fruto de dez anos de pesquisa para a tese de doutorado defendida em 1973 (p.11), destacando-se pelo forte caráter empírico. A apresentação da obra é feita por ninguém menos que Gilberto Freyre que, em 1978 afirma:
Sob essa perspectiva estaria ocorrendo uma cientifização do estudo histórico: isto é, do seu método ou dos seus métodos. Dos modos de pesquisa. Dos de ordenação e apresentação do material reunido. Mas sem que essa relativa cientifização de métodos venha importando no repúdio ao estudo histórico como literatura ou como arte. (p.8)
Baseando-se em documentos como os dos Anais da Câmara e do Senado, do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, do National Archives (Washington) e do Archivio Segreto Vaticano (Roma), além de outros arquivos de instituições religiosas no Brasil e no exterior, David G. Vieira nos mostra como a Igreja Católica estava em uma situação precária no período da Questão Religiosa. Politicamente enfraquecida pelo “uso e abuso do direito do padroado”, economicamente dependente de “côngruas mesquinhas” e com um clero “envolvido em política” e sendo acusado de “violador do celibato” (p.27), a Igreja teve que enfrentar a ameaça de invasão protestante, a maçonaria e o Estado. A priori Vieira apresenta duas hipóteses para a Questão Religiosa. A primeira, baseada na tese de Dom Antônio de Macedo Costa e do Arcebispo da Bahia, Dom Manuel Joaquim da Silveira, é a de que “grupos religiosos americanos... formavam a vanguarda treinada e consciente do imperialismo americano” com interesses na Amazônia (p.11); a segunda “presumia ter havido uma conspiração liberal, de âmbito universal, para destruir a Igreja Católica romana e que a maçonaria fora utilizada como arma para este fim” (p.11). David G. Vieira investiga e descarta tais hipóteses. Para ele a Questão Religiosa foi provocada por vários fatores, entre eles a luta pelos direito de culto dos não católicos e a defesa de seus direitos civis, além da consolidação do liberalismo.
O autor dedica grande parte da obra ao estudo dos vários grupos protestante estabelecidos no Brasil no século XIX. Considerados uma “espécie de enigma” pelo fato de serem heterogêneos, dividiam-se em: luteranos, anglicanos, metodistas, congregacionais e presbiterianos. Com ideologias diferentes, esses grupos, por serem minoritários, uniram-se entre si e também com outros grupos não católicos em defesa do direito de culto no Brasil.
Dividida em quatorze capítulos, a obra tem pelo menos cinco dedicados aos principais missionários protestantes e sua ação no Brasil. Nos capítulos três e quatro o autor nos apresenta uma considerável biografia de James Cooley Fletcher, americano, protestante e “expositor das Sagradas Escrituras” (p.81) que fez muitas amizades importantes no Império, inclusive com D Pedro II. A idéia de progresso, tão cara à maioria dos intelectuais do período, era frequentemente associada ao protestantismo, por isso Fletcher está sempre ligado aos maçons e liberais conhecidos como “amigos do progresso” (p.83). Além de Fletcher, o autor dedica o capítulo seis ao congregacional Robert Reid Kalley. Conhecido como “médico herético calvinista que estava ‘pervertendo’ o povo de Madeira”, Kelley foi perseguido pela “horda do populacho... encabeçada pelo Governador” da Ilha e saiu de lá disfarçado de “uma senhora idosa e doente” (p.114), vindo depois para o Brasil, onde também foi duramente perseguido. Os capítulos oito e nove são dedicados ao escocês Richard Holden, ministro episcopal que agiu no Pará e na Bahia publicando textos bíblicos e sermões em jornais. Uma reação interessante às publicações de Holden foi a elaborada pelo Bispo do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, que em 1861 fez circular uma Pastoral “anti-protestante” advertindo seus vigários contra o “monstro da heresia” e suas “falsas bíblias” (p.182). Mais tarde o missionário destacou em seu diário que o bispo considerou que ele “[Holden] estava perdendo tempo em Belém, pois que o povo do Pará não pensava. “Nem mesmo seus clérigos pensavam e ele estava perplexo sem saber o que fazer com eles”, assim registrou o escocês.” (p.185)
Tavares Bastos, deputado liberal, amigo de Fletcher e considerado o “apóstolo do progresso” (p.95) também recebe atenção especial no capítulo cinco. O autor nos apresenta vários sub - capítulos onde trata de personagens que foram importantes para a maçonaria, o protestantismo e a defesa do catolicismo ultramontano, essas pequenas biografias certamente causam bastante incômodo para quem não pretende se aprofundar no tema, em função de constituírem-se interrupções à narrativa. Porém são fundamentais para entender principalmente o protestantismo, tema ainda hoje pouco explorado pela historiografia.
Vieira nos mostra como a dita Questão Religiosa foi bastante mais ampla do que a falta de entendimento entre os bispos de Olinda e Pará e a maçonaria, o autor apresenta o tema como o confronto entre o liberalismo e o ultramontanismo no Brasil. Dentro deste quadro, os liberais e maçons foram vistos pelos ultramontanos como aqueles que pretendiam “protestantizar” o Brasil (p.373). Para influenciar a imigração, os liberais colocaram em questão temas irredutíveis para o catolicismo como o casamento civil e a liberdade de culto, imprescindíveis para o favorecimento da vinda daqueles considerados como “a raça mais apropriada para nós [brasileiros]... laboriosa, empreendedora, e perseverante” (p.234).
Tratando majoritariamente da inserção dos protestantes no Brasil e seus principais expoentes, a presente obra tornou-se um marco para o estudo do protestantismo brasileiro do século XIX. Dificilmente encontraremos trabalhos sobre esse período e tema (ainda que sejam pouco estudados pela historiografia atual) em que esta obra não conste na bibliografia. Com exceção das obras oficiais das igrejas protestantes apresentadas, O Protestantismo a maçonaria e a questão religiosa no Brasil é uma das poucas, senão a única que nos apresenta esse grupo que tanto cresce em nosso país, de uma maneira empírica e resultante de pesquisas sérias. Analisando os trabalhos publicados sobre o tema e a importância dada à obra de David Gueiros pode-se destacar O celeste porvir de A.G Mendonça, além das inúmeras teses e dissertações, a exemplo da tese de doutorado da Professora Elizete da Silva na Universidade de São Paulo em 1998 que trata dos anglicanos e batistas na Bahia.[1] Por fim, décadas depois de sua publicação, a obra de Vieira continua sendo um importante marco para o estudo do protestantismo. Apesar do título do livro ser muito mais abrangente, pode-se afirmar que poderia se resumir a um título que enfatizasse a inserção protestante em nosso país. Por esse motivo, tal obra se constitui como leitura indispensável àqueles que pretendem aprofundar-se no tema.
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[1]Antônio Gouvêa Mendonça. O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. 376pp. e Elizete da Silva. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia (Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 1998). 427pp

sábado, 26 de julho de 2008


Resenha do livro:
VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental: (séculos VIII a XIII); Tradução: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995.

Sendo um dos principais estudiosos da História das mentalidades e, sobretudo, do sentimento religioso do período medieval, André Vouchez é autor de obras de grande importância para o conhecimento desses temas. Além da obra sobre a qual vamos nos debruçar neste texto, podemos citar: La sainteté en Occident aux derniers siècles du Moyen Age d´après les procés de canonisation et les documents hagiographiques (2ed. Roma, 1988);; La santità nel Medioevo (Il Molino, 1999). Além das traduzidas para o português como: A Santidade (Lisboa, 1987) e ”O Santo” (In: Le Goff-org, 1990).

A espiritualidade na Idade Média ocidental: (séculos VIII a XIII), teve sua tradução autorizada da segunda edição francesa (La spiritualité du Moyen Age occidental), publicado em português em 1995 com 204 páginas. A obra está dividida em cinco partes temáticas, além da introdução, conclusão, bibliografia e índices. Este livro contém inúmeras informações, justamente em função disso e da brevidade da obra, por diversas vezes o leitor observará que alguns assuntos foram abordados de maneira superficial. No entanto, isso não retira da obra o seu brilho e importância, considerando a amplitude do tema tratado e a abertura do leque para estudos mais específicos. A especificidade e importância dessa obra estão na análise dos gestos, dos cantos, das representações iconográficas, das preces, ritos e devoções, onde Vauchez encara a espiritualidade como a maneira que se vive o conteúdo de uma fé. Destacam-se também as diferentes formas de espiritualidade proposta pelo autor, seja a da elite letrada ou da massa inculta, cada uma com sua forma de interpretação da mensagem cristã.

O tema central da obra, como já está indicado em seu título, é a espiritualidade cristã ocidental no período medieval, sendo que em cada capítulo especificado o período observado. No primeiro dos cinco capítulos do livro, Vauchez trata da “Gênese da espiritualidade medieval (séc. VIII - início séc. X)”. Em seguida, segundo capítulo, ele versa sobre “A Idade Monástica e feudal (final séc. X – séc. XI)”. O terceiro é “A Religião dos Novos tempos (séc. XI – séc. XII)”. Logo depois, Vauchez destaca “O Evangelho no Mundo: Cristocentrismo e busca da santificação (séc. XII – início séc. XIV)”. Por fim, veremos “O homem medieval à procura de Deus. Formas e conteúdo da experiência religiosa”. Analisaremos separadamente cada um desses capítulos a seguir.
Gênese da Espiritualidade Medieval (séc. VIII – início séc. X)

Este capítulo é um dos mais claros do livro, mesmo abrangendo um tão longo período de observação. Vauchez inicia-o confirmando o que a maioria dos estudiosos do catolicismo afirma e concorda: que essa religião tem como referência e norma ideal suas origens, por isso, a mudança quase sempre é vista como um mal. No tempo dos carolíngios, para se legitimar a sagração real, a Igreja adotou o retorno ao Antigo Testamento, aproximando-se ao Israel antigo. Vauchez observa que, nesse período, a prática religiosa está mais relacionada a uma obrigação social do que a uma expressão de fé ou devoção. Essa característica possibilitou o desenvolvimento do que o autor chama de uma civilização da liturgia, onde o ritualismo é um dos traços marcantes do culto e os fiéis meros espectadores.

Numa tentativa de enquadramento, o cristianismo impõe diversas exigências morais, essas foram expressas em diversos tratados. No entanto, Vauchez aponta que uma real experiência com o sagrado reduziu-se, durante muito tempo, a clérigos, monges e alguns leigos letrados. Acredito que a experiência com sobrenatural, observada em inúmeros dos atos da maioria leiga (crença em astros, amuletos, culto aos mortos, etc.) foi de grande importância para o catolicismo, visto que a Igreja procurou acolher aquilo que estivesse compatível com sua doutrina e que se verifica até nossos dias (exemplo do dia dos Finados).

A Idade Monástica e Feudal (final do séc. X – séc. XI)

O ponto principal deste capítulo é a crescente influência da espiritualidade monástica sobre o povo cristão, aqui o leitor tem esclarecimentos importantes sobre esses “homens superiores”. Os monges são apresentados como o grupo que melhor resistiu à secularização da Igreja (envolvimento de clérigos em questões políticas e econômicas), por isso foi entre eles que surgiram inúmeros movimentos de busca de uma profunda renovação espiritual. Os monges tinham uma espiritualidade e conduta em sua maioria pautada na regra de São Bento, praticavam diariamente uma liturgia com missas, orações, etc., além disso, trabalhavam (manualmente ou intelectualmente) e estudavam. Havia um ideal de vida angélica em que o mosteiro representava um “pedaço do céu na terra”, por isso estavam separados do mundo. Demonstravam desprezo às coisas terrestres, Vauchez nos mostra que os monges pregaram a incompatibilidade entre as preocupações mundanas e a vida religiosa, projetando o mal nas coisas, não nos homens.
O autor também destaca como a espiritualidade monástica influenciou a sociedade medieval. Para exemplificar isso podemos observar alguns parâmetros da Reforma Gregoriana: o celibato entre os padres também foi uma forma de separar aquele que celebra a missa do mundo, a exemplo de Cristo (casto e espiritual). No entanto, tal espiritualidade pouco influenciou a maioria leiga, por isso eles sentiam-se inferiores tanto no sentido religioso quanto cultural, Vauchez aponta esse sentimento de inferioridade como a maior conseqüência da difusão dessa espiritualidade. Inúmeros leigos, não podendo abraçar a vida monásticas (a mais excelente), aderem à vida eremítica, exageravam nos jejuns, flagelavam-se etc.

A Religião dos Novos Tempos (final séc. XI - séc. XII)

Muitos historiadores consideram esse período importante para avanços em vários setores da época. Vauchez destaca a expansão demográfica, a difusão de técnicas agrícolas e artesanais, o renascimento das cidades e a emergência de novos grupos sociais. Talvez seja em função das perturbações ocorridas neste período e de suas influências no mundo religioso que esse é o mais complicado capítulo deste livro. São inúmeras informações. No entanto, vale destacar aqui a idéia de retorno às fontes, procurava-se viver como a Igreja primitiva. Por isso, era importante para o período o ideal de vita apostolica (como a descrita nos Atos dos Apóstolos) e a pregação do evangelho.

Como os monges não pregavam, o eremitismo ganhou um grande impulso com o ideal de vida apostolica. Eles levavam uma vida ativa, trabalhavam com as próprias mãos, prestavam assistência a viajantes e pregavam a salvação a outros homens. Leigos, monges e clérigos, pessoas de todos esses grupos aderiram ao eremitismo, “mais um estado de espírito que uma forma de vida” (p.79). Para outros, a perfeição estava em adotar uma vida comunitária ligada à pobreza. Eram os cônegos regulares, eles elaboraram uma espiritualidade que exaltavam o sacerdócio, deviam praticar uma vida claustra, sendo exemplo da pobreza evangélica.

Vauchez mostra que, os movimentos acima citados começaram a questionar a riqueza e a contaminação com assuntos temporais por parte dos monges. Isso propiciou o nascimento de um novo ideal monástico, pois vários grupos pretendiam voltar à regra primitiva de São Bento. Instalavam-se em desertos, “longe do mundo” (centros urbanos), com o ideal de pobreza e vida apostólica. No entanto, como afirma Vauchez, discordavam entre o ideal e a realidade.

O Evangelho no Mundo: Cristocentrismo e Busca da Santificação (séc. XIII – início séc. XIV)

Para explicar suas afirmações, por inúmeras vezes o autor faz referência a textos escritos por religiosos do período. Desde o século XII vários deles colocam o Evangelho de Cristo como a mais perfeita regra, por isso cada Cristão deveria procurar viver de acordo com os ensinamentos e exemplos observados nos Evangelhos. Como é destacado por Vauchez, somente no século XIII, com São Francisco de Assis, é que a Igreja admitirá a propagação de tais ensinamentos. Francisco de Assis, além de alguns companheiros, foi o fundador da ordem dos franciscanos, ou Irmãos menores. Desejavam viver pobre e errantemente, a exemplo dos apóstolos e do próprio Cristo (“que não tinha onde reclinar a cabeça”) rejeitavam qualquer tipo de apropriação (seja comunitária ou individual), além de desenvolverem um ideal de igualdade entre clérigos e leigos. Todo esse ideal pode até ter durado um pouco de tempo, mas como observou Vauchez, a utopia franciscana era difícil de ser posta em prática.

Outra ordem mendicante deste período foi a dos Dominicanos, ou “Irmãos pregadores”. Tinham como objetivo “falar com Deus e de Deus”, por isso priorizavam o trabalho intelectual sobre a vida conventual e a liturgia. Além dos ideais de pobreza e humildade e da pregação do tipo apostólica, os dominicanos tinham como característica a função de “transmitir aos outros as coisas contempladas”, por isso ficaram conhecidos também como “doutores”, em contra partida aumento de poderio das universidades e da importância do saber teórico e prático. Exemplo do desenvolvimento e da importância dada ao saber por essa ordem é a influência que as idéias do dominicano São Tomás de Aquino ainda exercem na sociedade contemporânea.

Quanto aos leigos, Vauchez nos mostra que buscavam o espiritual nas Cruzadas (já que até as ordens militares tinham sua via de santificação), nas confrarias (grupos sócio-profissionais de ajuda mútua) que segundo Vauchez são o mais inovador aspecto de expressão da aspiração dos leigos na vida religiosa. O erro do confrade era expiado pela penitência, também se auto-flagelam publicamente.
O Homem Medieval à Procura de Deus. Formas e conteúdos da experiência religiosa

Neste interessante capítulo, Vauchez aponta as inúmeras formas de buscar a Deus do homem medieval. Um fato importante observado pelo autor, é a dificuldade que tinha o cristão medievo de pensar o abstrato, por isso sua experiência religiosa estava principalmente nos gestos e nos ritos. Destaca-se neste aspecto a peregrinação, ir ao lugar onde Deus escolheu para manifestar-se, onde ocorreu e podiam ocorrer milagres.

Vauchez destaca também a conquista de uma vida interior, o desenvolvimento de uma consciência. Por isso é de grande importância a confissão, gesto que absolve o ser humano do pecado e propicia a misericórdia de Deus em sua vida. Vauchez aponta também as origens da mística ocidental, origens da idéia de comunhão com Deus, que permite ao homem conhecer Deus “no mais profundo do mistério trinitário” (p. 174).

Vauchez encerra seu texto pontuando a estreita relação que existe entre a evolução da espiritualidade medieval e as transformações ocorridas no período, coloca então a vida espiritual como “tributária” dos sistemas econômicos e das relações sociais. Todavia, ele não é reducionista, observa que as mudanças ocorridas na espiritualidade não foram simples adaptações às mudanças sociais e econômicas, por isso devemos analisar inúmeros fatores.

Portanto, acredito ser de grande importância para o conhecimento e estudo do pensamento espiritual e cultural da Idade Média a leitura deste livro. Além disso, sabemos o quanto foi, e ainda é, importante para a humanidade a sua relação com o sobrenatural, fator que impulsiona mais ainda a leitura. Vauchez também abre um leque enorme para pesquisas mais específicas sobre determinados assuntos, daí a importância para aqueles que desejam estudar temas sobre a mentalidade religiosa medieval ou sobre as mudanças e permanências ocorridas no seio da Igreja Católica. Enfim, vale a pena lê-lo.





sábado, 28 de junho de 2008

Lado a lado com o Mestre


“Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28.20).
Essa é uma das mais interessantes promessas do Senhor para nossas vidas. Ele prometeu nunca nos abandonar, pois, deseja que estejamos sempre ansiosos por sua presença. Necessitamos muito de sua presença, afinal, é ao lado do Mestre que sentimos segurança, ousadia, confiança, paz, alegria etc.

Vejam o exemplo de Pedro: quando Judas, os sacerdotes, os fariseus e diversos guardas chegaram ao Getsêmani para prender Jesus, Pedro, por estar na presença daquele que outrora afirmou ser o filho do Deus vivo, puxou sua espada e feriu o servo do sumo sacerdote. Mesmo sendo advertido pelo Senhor acerca de seu ato, podemos destacar o destemor de Pedro quando junto ao Mestre (João 18.1-11). Pouco tempo depois, Jesus foi conduzido preso ao sinédrio, a Palavra de Deus diz que Pedro o seguia de longe (Mateus 26.58). Distante do Mestre a pedra virou pó, quando questionado se era companheiro do “galileu” Pedro por o negou (Mateus 26.69-75), mostrando como a distância que ele manteve do Senhor tirou a sua ousadia e a sua coragem.

Outro interessante exemplo, destacado pelas Sagradas Escrituras é o de Eliseu. A Bíblia relata que muitos estavam cientes de que o Senhor arrebataria Elias, quando ele e Eliseu estavam a caminho de Gilgal, por várias vezes o mesmo disse a Eliseu: “fica-te aqui”, porém ele respondeu: “não te deixarei”, e assim atravessaram a seco o Jordão. Porém, a Bíblia nos relata que “cinqüenta homens dos discípulos dos profetas” observavam-nos a certa distância, ou seja, estavam longe. Depois que Elias foi arrebatado, Eliseu tomou o manto daquele a quem servira e também passou a seco o Rio Jordão, tendo assim também recebido do Espírito a unção que desejava, enquanto os que estavam de longe nada receberam (II Reis 2.1-18).

Se o Senhor deseja que estejamos sempre ao seu lado, por que então nos afastamos ou o seguimos de longe? O profeta Isaías respondeu afirmando: “Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça(Isaías 59.2). Isso significa que quando somos injustos, mentirosos, caluniadores, prostitutos, egoístas, enfim, quando cometemos algum pecado, estamos nos afastando do Mestre, dizendo como Pedro: “não conheço esse homem”.

Por isso meus irmãos, estejamos em constante oração e vigilância, sempre buscando a presença do Senhor, procurando estar limpos, sem ter do que se envergonhar, desfrutando do amor do Mestre, de sua segurança e, melhor e mais importante, tendo a certeza da Salvação.
LFJ

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Diário de uma TV


Eu não agüento mais sofrer. Depois que me tiraram daquela caixa não me deixaram mais descansar (exceto algumas horas da madrugada).
Eles ficam ali, não tiram os olhos de mim. Chamam-me de forma diferente: pela manhã aquelas criaturas pequeninas me chamam de Xuxa, de Jack Chan, à tarde me chamam sempre de algum animal, depois de Malhação, de novela das seis, das sete, das oito, de William, de Fátima...
Certo dia fui surpreendida quando aquela senhora apontou para mim dizendo: “Cuidado ele está atrás de você!” Assustada passei mal. Ao invés de me ajudar, eles começaram a me bater, bater e bater até que, não agüentando, desmaiei. No dia seguinte acordei em um lugar estranho, senti que mexeram em meus “órgãos”, mas agora estava melhor. Não demorou muito e levaram-me de volta para aquela sala, voltei àquela triste rotina e, para piorar, colocaram um incômodo objeto em minha antena.
É amigos, o único dia em que fui feliz naquela casa foi quando por um dia inteiro faltou luz. Neste dia eles conversaram, sorriram, enfim, deram atenção uns aos outros. Fora isso, só sofrimento. Por que será que eles não procuram fazer outra coisa? Vai praticar esportes, ler... sei lá!

Deus é fiel!!!


Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. (Deuteronômio7:9)