terça-feira, 19 de julho de 2011

Feliz dia do Amigo!!!!!!!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O poder das palavras!!!

Salmos 19:14 “Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!”
Provérbios 13:3 “O que guarda a sua boca preserva a sua vida; mas o que muito abre os seus lábios traz sobre si a ruína.”
Mateus 12:34 “Raça de víboras! como podeis vós falar coisas boas, sendo maus? pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.”
Colossenses 4:6 “A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.”
Efésios 5:4 “Nem baixeza, nem conversa tola, nem gracejos indecentes, coisas essas que não convêm; mas antes ações de graças.”
Provérbios 25:11 “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.”  Isaías 50:4 “O Senhor Deus me deu a língua dos instruídos para que eu saiba sustentar com uma palavra o que está cansado; ele desperta-me todas as manhãs; desperta-me o ouvido para que eu ouça como discípulo.”
Êxodo 20:7 “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.”
Tiago 3: 5-10 "Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno. Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana; Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim."


Conclusão: Tenha cuidado com o que sai de sua boca, pois, " o que sai da boca procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem.”  Mateus 15: 18-20

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Judeus e árabes: o que esperar do oriente médio?

Análise do documentário:
PROMESSAS de um novo mundo. Direção: B.Z. Goldberg, Carlos Bolado, Justine Shapiro. Roteiro: Ilan Buchbinder, Stephen Most, Yoram Millo. Israel/EUA/Palestina, 2001, 116 minutos. (É possível assirtir todo o documentário pelo You Tube <http://www.youtube.com/results?search_query=promessas+de+um+novo+mundo&aq=0&oq=promessas+de+um+>)

Em interface com o texto:
GATTAZ, André. A Guerra da Palestina – Da criação do Estado de Israel à Nova Intifada. (caps 8 e 9). São Paulo, Usina do Livro, 2002.

Produzido entre 1997 e 2000 (pouco antes da mais recente Intifada, de Outubro de 2000), este documentário retrata a história de sete crianças israelenses e palestinas (Daniel, Yarko, Faraj, Moishe, Mahmoud, Sanabel e Shlomo) em Jerusalém e na Cisjordânia que, apesar de morarem próximas umas às outras, vivem em mundos completamente distintos, separados por diferenças políticas, sociais e religiosas. O narrador B.Z. Goldberg (também diretor do filme), inicia explicando que o objetivo do trabalho é mostrar o que as crianças, normalmente associadas ao futuro, têm a dizer sobre os conflitos e o processo de paz na região. As sete crianças, com idades entre 8 e 13 anos, falam sobre os horrores da guerra, sobre parentes e amigos mortos e destilam ódio contra as facções contrárias. Elas são consideradas normais, porém, como se vê no documentário, “ser normal no Oriente Médio significa conviver com a guerra”.

Entre as sete crianças estão os gêmeos israelenses Yarko e Daniel, moradores da Jerusalém Ocidental. Apesar de estudarem, brincarem e praticarem esportes, eles convivem com o medo do terrorismo e, além de falarem de coisas comuns ao mundo infantil, têm na ponta da língua opiniões quanto aos conflitos. Eles mostram aversão aos judeus religiosos e, contrariando-os, afirma que não foi Deus quem criou o atual Estado de Israel. Já na Jerusalém Oriental, o pequeno palestino Mahmoud afirma: “Os judeus dizem que essa terra é deles. Como pode ser deles? (...) Jerusalém é dos árabes.”

A origem dos conflitos, nas proporções que se encontram, está no ano de 1948, ano da fundação de Israel. Ano da “Guerra de Independência” para israelenses e da “Catástrofe” para os palestinos. André Gattaz traz em seu texto um documento muito importante, é a “Declaração de Independência do Estado de Israel”. Neste documento fica claro o discurso sionista de que a Terra de Israel “foi o berço do povo judeu” (p. 121), este mesmo discurso é utilizado por Moishe, criança judia que habita em um assentamento na Cisjordânia chamado Beit-El, que recorre à Bíblia para afirmar que Deus deu aquela terra a Abraão e por herança ela passou para Jacó, que teve seu nome mudado para Israel.
No dia seguinte à “Declaração de Independência do Estado de Israel”, a Liga Árabe emite um documento se referindo à criação do Estado de Israel como um centro espiritual para os judeus na Palestina, o documento também faz referência ao grande êxodo de palestinos para países árabes vizinhos. O filme afirma que cerca de 750 mil palestinos fugiram ou foram expulsos, tornando-se refugiados. André Gattaz faz referência ao “terror psicológico” e à morte de milhares de civis palestinos:
“mulheres, crianças e idosos eram levados às fronteiras pelos soldados israelenses, outros milhares de pessoas morreram devido ao calor, às doenças e aos maus-tratos por parte dos soldados. Nas aldeias desocupadas, os israelenses passavam ao saque sistemático: móveis, bens pessoais, máquinas e equipamentos, veículos e mesmo animais de criação eram levados, enquanto tudo o que não pudesse ser carregado era destruído ou incendiado.” (p.128)

Gattaz cita ainda a “restrição de movimentação dos indivíduos árabes” dentro do que é considerado Israel. No filme podemos observar a dificuldade que os árabes da Cisjordânia, área ocupada pelos israelenses após a Guerra dos Seis Dias, têm de ir a Jerusalém. Para passar nos postos de fiscalização eles têm que obter autorização do exército israelense. O filme mostra que os árabes consideram isso uma humilhação, uma forma de continuar aterrorizando psicologicamente, já os israelenses consideram uma proteção contra os ataques terroristas.

O documentário nos mostra como o ódio e a intolerância se prolifera dos dois lados, assim como os dois lados perdem com a guerra. Porém, como afirma Gattaz, os israelenses ganharam mais simpatia do Ocidente pelo fato de usarem a imprensa para contar suas histórias e versões dos conflitos. Até hoje podemos observar como boa parte da imprensa ocidental continua alinhada aos israelenses.

Alimentadas pelo ódio, as crianças palestinas e israelenses não têm contato umas com as outras, estão próximas, mas não se comunicam, muitas saem no soco, reproduzindo o conflito latente. Porém, nas últimas cenas do filme os gêmeos israelenses Yarko e Daniel encontram-se com os palestinos Faraj e Sanabel, além de outras crianças. Eles são desafiados a entenderem o lado do outro. As crianças brincam, se alimentam e conversam juntas. Nesse momento o filme parece nos transmitir a esperança de um mundo melhor, um mundo de compreensão cujas promessas são as crianças. Porém, quando os produtores do filme retornam, dois anos depois, encontram as coisas, no mínimo, no mesmo lugar. Não há diálogo pela paz, as crianças (ou as promessas) continuam afastadas por postos de fiscalização e mais recentemente por muros, pelo ódio e pela intolerância. O processo de paz tem que continuar, a participação da sociedade civil dos dois lados é indispensável para conter os extremistas e pressionar os governantes a manter abertos os canais de negociação. Enfim, o que se espera é que a paz na Palestina deixe de ser uma promessa, tornando-se realidade. Alguém acredita nisso?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Raça e Ciência na História

Na contraditória sociedade do século XIX desenvolveram-se idéias que, como afirmou o Historiador Renato da Silveira, funcionaram como ideologia e desempenharam um papel político muito importante para a compreensão da história da humanidade[1]. Estamos falando das teorias de superioridade raciais desenvolvidas e legitimadas por cientistas. Como mostra Silveira, a Ciência foi a grande arma das elites dirigentes, ela legitimou políticas de conquistas e segregação, fundamentais para o entendimento de nosso tema. A Ciência tornou-se porta voz da Verdade, papel que até então era exercido pela Igreja, logo, a Verdade propagada pela Ciência era a de superioridade racial das elites européias, estendendo-se à superioridade cultural, política, militar etc.
Para provar a superioridade das elites brancas européias, cientistas desenvolveram métodos diversos. A craniologia é um desses métodos, Silveira nos mostra o exemplo de Broca, cientista que reafirmou a superioridade do “homem branco, o lugar subordinado da mulher, do operário, do camponês e do nativo dos outros continentes” (Silveira, p. 104). Outro exemplo é o surgimento da etnologia, mais um dos ramos da Ciência que propagava a superioridade da raça branca. Vários outros cientistas, ou portadores da Verdade, desenvolveram idéias de superioridade da raça branca, idéias que se tornaram o foco das atenções no período, por isso Le Bon destaca a preponderância das idéias raciais para o entendimento da história.
Como vimos na citação acima, o discurso racista também se identificou com o discurso de classes. Preocupados com a “turba das ruas” e com a difusão da idéia de igualdade, Le Bon e a corrente de cientistas conservadores contrariavam a idéia de que a instrução daria iguais condições aos homens e mulheres, pois todos seriam iguais. Dentro do grupo de “ilusões mais funestas” criadas no século XIX está o socialismo. Sobre esse movimento político Le Bon afirma: “O socialismo hoje parece ser o mais grave perigo que ameaça os povos europeus” (Le Bon, p.183). Como observamos anteriormente, as idéias de Marx, Engels, Proudhon (além de Bakunin e outros) colocavam as classes trabalhadoras em posição de destaque na luta contra os privilégios da burguesia e das desigualdades sociais. Em função dos ideais do anarquismo, do comunismo e do socialismo, a segunda metade do século XIX foi repleta de movimentos sociais que causaram muita tensão nas elites da sociedade no período. Greves em diversas fábricas, camponeses mobilizados e mulheres reivindicando direitos são alguns dos exemplos de políticas de mudanças sociais e econômicas, luta por liberdade e igualdade. A tal “igualdade perfeita sonhada pelos nossos modernos socialistas”, como afirma Le Bon, era impossível porque havia um abismo entre as “camadas superiores” (a elite dirigente) e as “camadas inferiores” (operários, camponeses e mulheres), assim como havia um abismo entre brancos e negros, tudo comprovado pela Ciência, por isso tudo Verdade. A socióloga Marcia Cristina Consolim contribui bastante para o entendimento desse aspecto quando trata da “multidão”, nome dado por Le Bon ao poder popular, que “ele acredita estar crescendo e prejudicando enormemente as instituições da República” [2]. Em sua reação conservadora, Le Bon defende os interesses das elites dirigentes desprestigiando, pela análise científica, as pessoas que faziam parte da classe trabalhadora. Essas pessoas seriam
“impulsivas, instintivas, impressionistas, facilmente irritáveis e sugestionáveis, crédulas, fazem associações sem nenhuma lógica, pensam por imagens, não têm idéias próprias, têm freqüentemente alucinações coletivas, confundem a realidade com sua imaginação, são incapazes de raciocinar e de julgar e não têm bom senso.” [3]

Os mais fortes dominam os mais fracos, os mais capazes devem estar no controle. Essas idéias favoreceram o êxito das elites políticas não só no contexto de suas sociedades, não serviram apenas para legitimar seus poderes contra os camponeses e operários, serviram também para consolidar um dos mais importantes aspectos da história da humanidade, ocorrido entre o final do século XIX e início do século XX, o imperialismo. Hobsbawn afirma que este novo imperialismo proporcionou que inúmeras partes do globo fossem divididas por grandes potências como Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos, Holanda e mais alguns poucos[4]. Essa divisão do mundo foi legitimada pelas idéias de que os mais “fortes” e “avançados” deveriam dominar os mais “fracos” e “atrasados”. Além das questões econômicas, relacionadas com o fato da matéria-prima para os produtos industrializados europeus e norte-americanos estarem em países que agora são suas colônias, além do aumento do mercado consumidor e da possibilidade de mão-de-obra barata, o imperialismo também apresenta conflitos políticos, ideológicos e raciais. Sobre este último aspecto, cabe retornar às idéias de superioridade racial dos brancos em relação aos negros africanos, por exemplo, que fez com que o continente fosse dominado por um pequeno número de colonizadores cuja tarefa, entre outras coisas, era levar a “luz” para o continente das “trevas”, era civilizar esses bárbaros, levar a eles o progresso, seria esse o “fardo” do europeu. O continente africano é tratado como “zona servil”, onde seus habitantes eram à “imagem de povos pré-históricos” e “infantis”, características que justificariam o domínio do branco superior[5].
Essa política expansionista européia e norte-americana proporcionou a divisão do mundo entre poucos. De certa forma, o imperialismo proporcionou uma maior identificação das massas com o Estado e a nação, justificando e legitimando ações das elites políticas envolvidas. Porém, esse expansionismo também gerou conflitos entre as grandes potências, conflitos que os levaram à Primeira Guerra Mundial. Le Bon afirmou que um dos “mais importantes elementos da civilização são os que permitem a um povo avassalar os outros, isto é, as instituições militares” (p.70), nesse mesmo contexto Márcia Maria Menendes Mota afirma que, nos antecedentes da Primeira Guerra, havia a crença de que seria um conflito rápido, já que cada nação acreditava na sua superioridade em relação às outras[6]. Como sabemos, os que acreditavam nessas idéias se enganaram profundamente. A Guerra durou anos (1914-1918), e as idéias de superioridade racial nada tinham de Verdade.


[1] SILVEIRA, Renato da. Os selvagens e a massa: papel do racismo científico na montagem da hegemonia ocidental. Afro-Ásia, n. 23, 1999, p. 89-145.
[2] CONSOLIM, Marcia Cristina . Gustave Le Bon e a reação conservadora às multidões. In: XVII Encontro Regional de História (ANPUH), 2004, Campinas - SP. XVII Encontro Regional de História (Anpuh). Campinas - SP, 2004.
[3] Ibidem, p.6
[4] HOBSBAWN, Eric J. “A Era dos Impérios”. In: A Era dos Impérios 1875-1914. 3ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992, pp. 87-124
[5] SILVEIRA, Renato da, op. cit. pp.119-120 e HOBSBAWN, Eric J. “A Era dos Impérios”, op.cit. p.106
[6] MOTTA, Márcia Maria Menendes. A Primeira Grande Guerra. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (Orgs.). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, v. 1 (O tempo das certezas: da formação do capitalismo à Primeira Guerra Mundial), p. 233-251.

domingo, 24 de janeiro de 2010

História do trabalho no Brasil


Questionando a produção de historiadores e sociólogos dos anos 60 e 70, sobre a gênese do trabalho livre no Brasil, Sílvia Lara critica àqueles que pautaram seus estudos de acordo com as idéias de “transição” e de “substituição” [1]. Os defensores da teoria da transição tratavam a História do trabalho no Brasil a partir do final do século XIX, excluindo o trabalhador negro de suas análises, já os defensores da teoria da substituição, considerados pela autora como os radicais da historiografia da transição, postulavam a substituição do escravo pelo trabalhador livre. Em ambas as teses, saem de cena os trabalhadores negros e surgem os imigrantes europeus.
Sílvia Lara, assim como Cláudio Batalha e John French,[2] contrapõe historiadores e sociólogos que, segundo Lara “transformaram em explicação histórica, idéias e concepções que, cem anos antes, faziam parte de um intenso jogo político”. Na segunda metade do séc. XIX discutia-se sobre a incapacidade dos negros e a esperança de progresso simbolizado pela mão- de- obra imigrante. Já nas décadas de 60 e 70, partindo da noção de que o trabalho livre significa a liberdade de poder vender a força de trabalho pela melhor oferta e mais do que isso, que a condição de livre assegura direitos, estudiosos como Florestan Fernandes e J. de S. Martins tratam do trabalhador no Brasil identificando-os como homes brancos vindos do exterior. Porém, Lara, Batalha e French problematizam a idéia de liberdade como a “possibilidade de vender ‘livremente’ a força de trabalho em troca de um salário” (Lara, p.28) e propõem como solução para não cair na cilada da dicotomia (escravidão e liberdade), “historicizar o sentido de liberdade” (French, p.88), os estudiosos devem encará-la não como algo estático e determinado, mas como um processo. A liberdade poderia significar condições de vida piores do que às existentes no período escravocrata (Batalha, p.108), poderia significar viver longe de quem outrora era senhor e, entre outras coisas, “significou a possibilidade de não servir a mais ninguém” (Lara, p.28).
Cláudio Batalha mostra os diversos limites a essas liberdades enfrentados pelos trabalhadores urbanos no Brasil da Primeira República, apresentadas em contraposição à do tempo do escravismo, conforme relataram os estudiosos das décadas de 60 e 70. Evidenciando as condições de trabalho adversas, os abusos sexuais no trabalho, as restrições raciais, a repressão dos patrões e do Estado, e a falta de direitos políticos, Batalha analisa continuidades históricas entre o período da escravidão e o pós- 1888. Porém, essa perspectiva não deve ser usada para explicar tudo. Para ele, explica o preconceito racial e a exclusão, mas características como a violência e a ausência de direitos, pelo fato de também estarem presentes em sociedades que não tiveram um passado escravista, devem ser comparadas às desses países para que possamos compreender melhor a história do trabalho no Brasil. French, sem ressalvas, afirma que “os legados da escravidão africana incluem noções bem estabelecidas sobre o exercício legitimo da autoridade” (French, p. 78). As noções teóricas de liberdade, as mesmas defendidas pelos estudiosos das décadas de 60 e 70, “encontram seus limites na bala de um homem armado” ( French, pp. 82 e 91).
A partir da década de 80, a produção historiográfica já estava mais voltada para compreender o trabalho no Brasil abandonando o determinismo da substituição ou da transição do processo histórico, tão importantes para os intelectuais das décadas anteriores e passou a trabalhar a partir das transformações sociais. Essa forma de abordar a temática relativa à formação da classe trabalhadora brasileira pelos historiadores da década de 80 trouxe um novo olhar sobre a origem desse grupo social, pois considerou que o trabalho livre no Brasil estava ligado não somente à mão-de-obra imigrante, mas sim, e principalmente, ao trabalhador escravo que antecedeu à vinda dos imigrantes estrangeiros. Através de novas fontes e metodologias, os historiadores da “geração 80” produziram uma historiografia que considerou o trabalho escravo como a origem do trabalho e dos trabalhadores no Brasil, pesquisas deixaram de focar apenas São Paulo, destacando como em várias regiões, onde a mão- de- obra imigrante era escassa, predominou a mão-de-obra “nacional”. As utilizações de novas fontes e as releituras de antigas permitiram que historiadores problematizassem paradigmas e observassem como a atitude de “ganhadores” durante A greve negra de 1857 na Bahia[3], por exemplo, mostram como os negros, escravos ou libertos, já estavam integrados à dinâmica do trabalho livre. Sendo assim, as teorias de transição e substituição perdem valor explicativo.

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[1] LARA, Silvia Hunold. "Escravidão, cidadania e história do trabalho no Brasil". Projeto história: revista do Departamento de pós-graduação da PUC-SP. São Paulo, EDUC, no 16, 1997, pp. 25-38.
[2] BATALHA, Claudio H. M. “Limites da liberdade: Trabalhadores, relações de trabalho e cidadania durante a Primeira República”. In: Douglas Cole Libby; Júnia Ferreira Furtado. (Org.). Trabalho livre, trabalho escravo - Brasil e Europa, séculos XVIII e XIX. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2006, p. 97-110 e FRENCH, John. “As falsas dicotomias entre escravidão e liberdade: continuidades e rupturas na formação política e social do Brasil moderno”. In: Douglas Cole Libby; Júnia Ferreira Furtado. (Org.). Trabalho livre, trabalho escravo - Brasil e Europa, séculos XVIII e XIX. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2006 pp.75-109.
[3] REIS, João José. A greve negra de 1857 na Bahia. Revista da USP Dossiê Brasil/África. São Paulo, 18:07-29, jun./jul./ago. 1993

Resenha do livro: O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil (David Gueiros Vieira)

Neste importante estudo, Davis Gueiros Vieira, PhD em História da América pela American University (Washington, DC) e professor aposentado da Universidade de Brasília, registra de forma esclarecedora a participação dos protestantes na chamada Questão Religiosa, resumidamente entendida como conflito entre católicos ultramontanos e a maçonaria na segunda metade do século XIX. Partindo de 1850, o autor apresenta os antecedentes dos fatos que, sem dúvida alguma, foi o mais duro conflito entre a Igreja e o Estado do século XIX. A presente obra foi fruto de dez anos de pesquisa para a tese de doutorado defendida em 1973 (p.11), destacando-se pelo forte caráter empírico. A apresentação da obra é feita por ninguém menos que Gilberto Freyre que, em 1978 afirma:
Sob essa perspectiva estaria ocorrendo uma cientifização do estudo histórico: isto é, do seu método ou dos seus métodos. Dos modos de pesquisa. Dos de ordenação e apresentação do material reunido. Mas sem que essa relativa cientifização de métodos venha importando no repúdio ao estudo histórico como literatura ou como arte. (p.8)
Baseando-se em documentos como os dos Anais da Câmara e do Senado, do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, do National Archives (Washington) e do Archivio Segreto Vaticano (Roma), além de outros arquivos de instituições religiosas no Brasil e no exterior, David G. Vieira nos mostra como a Igreja Católica estava em uma situação precária no período da Questão Religiosa. Politicamente enfraquecida pelo “uso e abuso do direito do padroado”, economicamente dependente de “côngruas mesquinhas” e com um clero “envolvido em política” e sendo acusado de “violador do celibato” (p.27), a Igreja teve que enfrentar a ameaça de invasão protestante, a maçonaria e o Estado. A priori Vieira apresenta duas hipóteses para a Questão Religiosa. A primeira, baseada na tese de Dom Antônio de Macedo Costa e do Arcebispo da Bahia, Dom Manuel Joaquim da Silveira, é a de que “grupos religiosos americanos... formavam a vanguarda treinada e consciente do imperialismo americano” com interesses na Amazônia (p.11); a segunda “presumia ter havido uma conspiração liberal, de âmbito universal, para destruir a Igreja Católica romana e que a maçonaria fora utilizada como arma para este fim” (p.11). David G. Vieira investiga e descarta tais hipóteses. Para ele a Questão Religiosa foi provocada por vários fatores, entre eles a luta pelos direito de culto dos não católicos e a defesa de seus direitos civis, além da consolidação do liberalismo.
O autor dedica grande parte da obra ao estudo dos vários grupos protestante estabelecidos no Brasil no século XIX. Considerados uma “espécie de enigma” pelo fato de serem heterogêneos, dividiam-se em: luteranos, anglicanos, metodistas, congregacionais e presbiterianos. Com ideologias diferentes, esses grupos, por serem minoritários, uniram-se entre si e também com outros grupos não católicos em defesa do direito de culto no Brasil.
Dividida em quatorze capítulos, a obra tem pelo menos cinco dedicados aos principais missionários protestantes e sua ação no Brasil. Nos capítulos três e quatro o autor nos apresenta uma considerável biografia de James Cooley Fletcher, americano, protestante e “expositor das Sagradas Escrituras” (p.81) que fez muitas amizades importantes no Império, inclusive com D Pedro II. A idéia de progresso, tão cara à maioria dos intelectuais do período, era frequentemente associada ao protestantismo, por isso Fletcher está sempre ligado aos maçons e liberais conhecidos como “amigos do progresso” (p.83). Além de Fletcher, o autor dedica o capítulo seis ao congregacional Robert Reid Kalley. Conhecido como “médico herético calvinista que estava ‘pervertendo’ o povo de Madeira”, Kelley foi perseguido pela “horda do populacho... encabeçada pelo Governador” da Ilha e saiu de lá disfarçado de “uma senhora idosa e doente” (p.114), vindo depois para o Brasil, onde também foi duramente perseguido. Os capítulos oito e nove são dedicados ao escocês Richard Holden, ministro episcopal que agiu no Pará e na Bahia publicando textos bíblicos e sermões em jornais. Uma reação interessante às publicações de Holden foi a elaborada pelo Bispo do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, que em 1861 fez circular uma Pastoral “anti-protestante” advertindo seus vigários contra o “monstro da heresia” e suas “falsas bíblias” (p.182). Mais tarde o missionário destacou em seu diário que o bispo considerou que ele “[Holden] estava perdendo tempo em Belém, pois que o povo do Pará não pensava. “Nem mesmo seus clérigos pensavam e ele estava perplexo sem saber o que fazer com eles”, assim registrou o escocês.” (p.185)
Tavares Bastos, deputado liberal, amigo de Fletcher e considerado o “apóstolo do progresso” (p.95) também recebe atenção especial no capítulo cinco. O autor nos apresenta vários sub - capítulos onde trata de personagens que foram importantes para a maçonaria, o protestantismo e a defesa do catolicismo ultramontano, essas pequenas biografias certamente causam bastante incômodo para quem não pretende se aprofundar no tema, em função de constituírem-se interrupções à narrativa. Porém são fundamentais para entender principalmente o protestantismo, tema ainda hoje pouco explorado pela historiografia.
Vieira nos mostra como a dita Questão Religiosa foi bastante mais ampla do que a falta de entendimento entre os bispos de Olinda e Pará e a maçonaria, o autor apresenta o tema como o confronto entre o liberalismo e o ultramontanismo no Brasil. Dentro deste quadro, os liberais e maçons foram vistos pelos ultramontanos como aqueles que pretendiam “protestantizar” o Brasil (p.373). Para influenciar a imigração, os liberais colocaram em questão temas irredutíveis para o catolicismo como o casamento civil e a liberdade de culto, imprescindíveis para o favorecimento da vinda daqueles considerados como “a raça mais apropriada para nós [brasileiros]... laboriosa, empreendedora, e perseverante” (p.234).
Tratando majoritariamente da inserção dos protestantes no Brasil e seus principais expoentes, a presente obra tornou-se um marco para o estudo do protestantismo brasileiro do século XIX. Dificilmente encontraremos trabalhos sobre esse período e tema (ainda que sejam pouco estudados pela historiografia atual) em que esta obra não conste na bibliografia. Com exceção das obras oficiais das igrejas protestantes apresentadas, O Protestantismo a maçonaria e a questão religiosa no Brasil é uma das poucas, senão a única que nos apresenta esse grupo que tanto cresce em nosso país, de uma maneira empírica e resultante de pesquisas sérias. Analisando os trabalhos publicados sobre o tema e a importância dada à obra de David Gueiros pode-se destacar O celeste porvir de A.G Mendonça, além das inúmeras teses e dissertações, a exemplo da tese de doutorado da Professora Elizete da Silva na Universidade de São Paulo em 1998 que trata dos anglicanos e batistas na Bahia.[1] Por fim, décadas depois de sua publicação, a obra de Vieira continua sendo um importante marco para o estudo do protestantismo. Apesar do título do livro ser muito mais abrangente, pode-se afirmar que poderia se resumir a um título que enfatizasse a inserção protestante em nosso país. Por esse motivo, tal obra se constitui como leitura indispensável àqueles que pretendem aprofundar-se no tema.
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[1]Antônio Gouvêa Mendonça. O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. 376pp. e Elizete da Silva. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia (Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 1998). 427pp